História do Tatuapé

Início » Blog » História do Tatuapé

História do Tatuapé

De chácaras a grandes empreendimentos, quem reside há muitos anos no bairro conta sobre a vida e as transformações do ‘caminho do tatu’’.

Como a maioria dos tradicionais bairros paulistanos, o Tatuapé, palavra originalmente oriunda do tupi-guarani, que significa ‘caminho do tatu’, começou a ter sua expansão territorial após a vinda de imigrantes italianos ao distrito. E foi com as vinículas de produção de vinho do empresário ítalo-brasileiro, Francisco Marengo, instalado na sexta parada do trem, onde provavelmente é uma das estações de Metrô, que os imigrantes e pessoas de outros bairros da cidade começaram a habitar o local. E há muito tempo atrás, os moradores que vieram para arriscar a vida nesse pedaço de terra da Zona Leste, não imaginavam que esse seria um dos principais bairros de São Paulo e hoje em dia têm muita história para contar.

Descendente de pais húngaros, Estevão Kondrat Filho, de 85 anos, veio do interior com a família que residia próxima a região da cidade de Presidente Venceslau para o Tatuapé, com nove anos de idade. Ainda criança, Kondrad estudou no Colégio Santo Antônio de Lisboa, onde conclui o curso primário na década de 1940.

ÉPOCA DE GUERRA
“Na ocasião da guerra, minha mãe me dava um cobertorzinho e eu ia buscar carne para minha família e para a vizinhança às 2 da madrugada, no único açougue que tinha na Rua Antonio de Barros. A gente tinha que adoçar as coisas com rapadura, porque tinha cota de açúcar e cota de óleo também. Depois a gente conseguiu um açougue que fazia entregas à domicílio e as coisas melhoraram”, lembrou.

MUITO TRABALHO
Fez o ginásio e se formou como mestre de obras pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), no ensino médio. Trabalhou por muitos anos em várias empresas e ajudou a construir diversas pontes e rodovias paulistas, inclusive túneis da Rodovia Anchieta e a Ponte do Rio Pequeno, além do prédio sede da Fundação Cásper Líbero, na Avenida Paulista.

TEMPOS DIFÍCEIS
Quando jovem e estava começando a vida, Kondrat conta que viver no Tatuapé era muito difícil. “Aqui não tinha comércio, o único empório que tinha era na Rua Serra de Bragança com a Rua Antonio de Barros. Pegava o bonde lotado para conseguir ir até o trabalho que era na região central”, descreve.

Na década de 50, casou-se e constitui sua família com cinco filhos, ainda morando no Tatuapé, mas só em 1960, comprou o terreno da casa em que mora atualmente. “A casa que nós morávamos, quando casei, começou a ficar pequena. Foi então que decidi mudar comprando esse terreno diretamente com o proprietário, o senhor Francisco Marengo (na rua em que homenageia o italiano dono de grande parte dos terrenos da região). Aqui antes só tinham chácaras”, contou.

DÉCADA DE 1970
Kondrat ressalta que foi com a chegada do Metrô, no início da década de 1970, que o bairro começou a se expandir. “Aí vieram os comércios, mais pessoas começaram a ter acesso à região, mais casas foram construídas e aquele monte de chácaras começou a desaparecer”. Morando há mais de 50 anos na mesma casa, Kondrad é avô de 10 netos e bisavô de 5 bisnetos, que também são tatuapeenses. Atualmente gosta de ficar em casa, aproveitando para descansar, após tantos anos de trabalho, com a família.

65 ANOS DE TATUAPÉ
Casado, pai de três filhas e com 38 anos de idade, Arnaldo Gonçalves, de 91 anos, veio morar no Tatuapé em 1950. “Eu morava na Vila Maria, aí comprei um terreninho na Rua José Cardoso e construí uma casinha”. Naquele tempo, no local haviam chácaras de verduras, do proprietário que dá nome a rua.

Gonçalves trabalhava nas lojas Pernambucanas, no centro da cidade e seu meio de transporte era o bonde que vinha pela Avenida Celso Garcia, e ligava o Centro à Penha. “Naquele tempo o trem era Maria-Fumaça, que passava na quinta parada, que ficava entre a Rua Antonio de Barros e Avenida Radial Leste, atualmente local próximo ao Metrô Carrão. Não era fácil, quando tinha trem, vinha sempre cheio. E já tinha gente que morava mais distante. Os ônibus eram tipo jardineira, que vinham da Vila Carrão até o Hospital Tatuapé. Ele parava naquele ponto, e se chamava ‘Poeirinha’, porque ficava todo sujo de terra, as ruas eram todas de barro. E na Celso Garcia, tinha o bonde”, detalhou.

ASFALTO NAS RUAS
Ele conta que viu o Tatuapé ser expandido a partir do calçamento das vias. “Asfaltaram as ruas Antonio de Barros e José Cardoso, e assim as pessoas começaram a habitar mais o bairro. Antes só tinha comércio pra baixo da linha do trem, sentido Avenida Celso Garcia. Pra cá não tinha nada. Aí com o asfalto, o comércio também chegou ao bairro”. Gonçalves também diz que com a implantação do Viaduto Antonio de Barros, a vida dos moradores também começou a ser facilitada “foi uma melhoria porque antes tínhamos que atravessar a linha do trem e era perigoso”.

VOLTANDO AO BAIRRO
Com o casamento de suas filhas, Gonçalves resolveu voltar para Santa Rita, sua cidade natal, no interior de São Paulo, em 1980. “Fiquei três anos na minha terra com minha esposa e minha sobrinha. Acabei voltando porque minhas filhas ficaram morando aqui, minha sobrinha também se casou e mudou, então resolvemos voltar para o Tatuapé, quando fui morar próximo a Praça Silvio Romero. Depois em 1983, mudei para minha atual residência”. Já aposentado, quando voltou à Capital, Gonçalves trabalhou por 10 anos na secretaria do extinto Colégio Jasy. “Eu gostava muito de trabalhar lá”.

COISAS BOAS
Perguntado sobre o que o bairro oferece de melhor depois dessa expansão, Gonçalves aponta inúmeras qualidades ao bairro que reside há mais de 60 anos e conta sobre suas atividades. “Atualmente aqui tem tudo de bom, vários restaurantes, teatro, hospitais. Quase todos os dias eu me encontro com meus amigos no Largo do Bom Parto e jogamos dominó na parte da manhã. Em cada mesinha jogam quatro pessoas e nós jogamos baralho também. Além do dominó faço palavras cruzadas. Eu tenho um monte de jornais e de livrinhos para passar o tempo”.

HISTÓRIA DE AMOR
Depois que ficou viúvo em 1990, Gonçalves ficou sozinho por cinco anos, até que começou a frequentar os bailes do antigo Ceret, atualmente nomeado por Parque dos Trabalhadores (PET). “E foi no baile do Ceret que conheci minha atual esposa, Nair Pereira do Santos. Eu frequentava bastante aos sábados e ela, que também morava no Tatuapé, frequentava um baile na Penha. Começamos a nos encontrar e logo veio o namoro. Durante dez anos dançamos juntos nos bailes e o nosso relacionamento já tem 17 anos”, finaliza contando a história muito contente.

CENTENÁRIA
Aparecida de Oliveira Santos, carinhosamente chamada por Dona Cida, no dia 25 de agosto, completou 100 anos, sendo que 77 deles foram vividos no bairro. Simpática, feliz e muito lúcida, apesar da idade, Dona Cida trabalha com turismo, participa todos os dias do Projeto Caminhada realizado no Complexo Comercial do Tatuapé e gosta de agradar os familiares preparando deliciosos quitutes. Ela iria nos contar sobre sua vida e o que viu das transformações dos caminhos dos tatus, mas um pequeno problema de saúde impediu sua participação. Mesmo assim, ela faz parte da história do bairro e em uma próxima reportagem irá nos contar muitas histórias.