Pesquisa mostra que maioria não quer deixar de viver na Zona Leste

Início » Blog » Pesquisa mostra que maioria não quer deixar de viver na Zona Leste
Fachada do edifício Camille Claudell, na Vila Formosa, zona leste - Fonte : Folha de São Paulo

Desinformação em relação à área, associada historicamente com classes mais baixas, ainda gera estigma e um falso retrato da cidade, segundo urbanista.Quem é da zona leste não quer saber de se mudar.

Com quase 4 milhões de habitantes, a parte mais populosa da cidade tem um perfil bem bairrista: 74% dos moradores não têm planos de migrar para outras regiões, segundo pesquisa Datafolha de 2012.“Sou 100% ZL”, diz com convicção, Newton Salazar, 53. O vendedor, que se declara “torcedor do Juventus de coração e do Corinthians por opção”, nasceu no bairro da Vila Guilhermina, morou na Vila Esperança e hoje vive na Mooca, onde já teve três apartamentos. “Daqui saio só para o crematório”, brinca.

Na hora de mudar de endereço, alguns distritos são mais procurados. Os moradores não abrem mão de suas raízes na zona leste, mas se podem, preferem ficar mais perto do centro. Belém, Mooca, Vila Prudente, Tatuapé, Água Rasa, Penha, Carrão e Vila Formosa são os locais que concentram ao menos 120 empreendimentos imobiliários lançados dos últimos cinco anos, segundo pesquisa da consultoria Geoimóvel.

Por lá, a paisagem é de canteiro de obras: ao longo da Radial Leste, edifícios repletos de andaimes e tapumes anunciam novos apartamentos. Nos próximos três anos, ao menos 3.000 imóveis serão inaugurados na região.

No Tatuapé, o cenário é ainda mais óbvio: trata-se do distrito com o maior número de imóveis novos disponíveis, 1.280 apartamentos à venda. Essa faixa mais central atrai moradores de toda a zona leste, o que não é pouca coisa: estamos falando de uma concentração de 12.290 habitantes por quilômetro quadrado (em São Paulo, a densidade é de 7.460).

 

Poder aquisitivo

“São moradores que melhoraram seu poder aquisitivo, mas não querem sair daqui, então buscam essas áreas mais centrais”, explica Fabio Verçosa, diretor da Diálogo Engenharia.

É o caso de Alfredo Vila Nueva, 47. O dentista é boliviano, mas já se considera um morador tradicional da zona leste. Desde que chegou a São Paulo, há 15 anos, mora no bairro de Jardim Colorado, em Sapopemba. No final do ano, ele a mulher e a filha se mudam para o Tatuapé, no edifício Spettacolo, das incorporadoras PDG Realty e Planik. “Aqui [no Tatuapé] há mais segurança e, além disso, estamos a dez minutos da estação Carrão. Antes, para ir ao centro, precisava pegar um ônibus e depois o metrô”, conta, em um misto de espanhol e português.

Segunda André Resende, diretor da incorporadora Porte, esse público tem saído de bairros periféricos ou distantes do eixo do metrô e representa quase a metade dos moradores da zona leste “central”.

Os demais são aqueles que já habitam área, alem de ex moradores de Guarulhos, Arujá e Mogi das Cruzes. O público é formado principalmente por famílias: entre os imóveis disponíveis, mais de 80% deles são de dois ou três dormitórios. Hoje, a região concentra 3.697 aparatamentos à venda.

Se quem vive na zona leste é entusiasta da região, moradores de outras partes da cidade muitas vezes a enxergam com preconceito. “Me perguntam se tem ônibus, se é asfaltado, se tem saneamento. As pessoas são desinformadas, só conhecem até o Tatuapé”, critica a artesã Natália Torres, 24, que mora em Ermelino Matarazzo.

Alguns moradores levam os estereótipos na brincadeira. “o pessoal tira sarro, diz que aqui só tem bandido e corintiano. Mas eu sou palmeirense, hein”, exclama a vendedora Marizilda Trombini, 62, moradora da Penha. A discriminação acontece muito, diz Ciro Pirondi, diretor da Escola da Cidade. “O tom pejorativo quando dizem que algo ‘é da ZL’ é muito claro”, afirma o urbanista, que já viveu em bairros como Belém e Tatuapé.

É raro que paulistanos de outras partes busquem a zona leste, segundo incorporadoras que atuam na região. No caso do fiscal ambiental Reginaldo Viana, 40, o motivo da mudança foi um emprego em Guarulhos. O ex-morador de Pirituba encontrou no Tatuapé uma opção mais próxima ao trabalho. “Quando digo que estou aqui, logo associam a um bairro barra pesada. Claro que tem assaltos, mas não é tanto quanto se fala”, afirma.

Para a professora de planejamento urbano da USP Luciana Royer, o estigma da zona leste, historicamente identificada com classes de rendas mais baixas, “é um falso retrato da cidade”. “Acho difícil que esse preconceito se perpetue. São Paulo é uma cidade muito dinâmica, tanto do ponto de vista imobiliário quanto do ponto de vista populacional.”

Fonte: Folha de São Paulo